O voluntariado me levou aos idosos

Por trás das fisionomias que encontro no Cantinho dos Idosos, tanta história para contar… Hoje eu queria contar uma, entre as muitas que ouço como voluntária nesse Lar Geriátrico há 15 anos.

Por longo tempo concentrei minha atenção na ala feminina. Toda semana, no horário combinado, apareço  na casa para tocar música, cantar, perguntar a cada senhora o que dói e dar abraços de montão! E ai de que não apareça para ver! Prefiro ser assídua e não frustar as expectativas da plateia. Tem gente me esperando para fazer bagunça!

Tiro canções do fundo do baú, especialmente marchinhas de carnaval, instigo o pessoal a cantar e dançar, noto a emoção de algumas…

Por preconceito, eu achava que a ala masculina não interagiria com tanta intensidade. Só recentemente descobri o quanto esses senhores curtem música e me surpreendo a cada domingo. Um deles, sem pernas e na sua cadeira de rodas, levanta ambos os braços para se balançar (à direita).  Outro, risonho, revela-se integrante da Velha Guarda da Unidos da Coloninha (abaixo) quando simulo uma bateria com meu teclado e ainda toco um sambinha.  Ele puxa o coro e os companheiros de quietude, naquele momento, soltam a voz.

Nem as enfermeiras resistem e passam feito passistas pelo salão, mesmo  que o trabalho as chame. Lá da cozinha, outros colaboradores fazem o back vocal, e assim a música ecoa pela casa.  Essa conjunção de energias muda o astral de algumas pessoas por alguns instantes.

Esse é um exemplo do trabalho de formiguinha de que gosto tanto, talvez por me fazer pertencer ao coletivo “voluntários”, um grupo composto por mortais cheios de defeitos porém dispostos a ajudar.  Buscar esse pertencimento fez todo o sentido quando eu, aos 16 anos, entrei para a Anistia Internacional. Depois abracei outras causas: pacientes de Aids, crianças cujos pais eram portadores de HIV, idosos de cinco ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos), índios guarani de Morro dos Cavalos e Maçiambu. Isso no Brasil.

Nos Estados Unidos, fui tutora num orfanato voltado a menores latinos e colaborei com a ONG  Save the children. Pus a mão na massa na Cruz Vermelha Espanhola, a qual me deu cursos e oportunidades para atuar com pessoas de deficiências variadas, sem falar na emocionante tarefa de visitar idosos que viviam isolados em vilarejos do interior, toda semana, a ponto de tornar-se uma visita esperada. Quantas boas memórias desses indivíduos!

De todas as pessoas que conheci como voluntária, os mais velhos são meus preferidos. Chego num grau de proximidade que a idade não vem ao caso.

Entre as histórias que os « hóspedes » do Cantinho dos Idosos têm para contar, há sempre muita desgraça, e eu ouço tudo empaticamente, de verdade. Ainda assim,  quando termino a cantoria, boto a viola no saco e saio leve como uma pluma.

Convido aos interessados a buscar um trabalho voluntário condizente com sua aptidão e capacidade de doação. Não espere a aposentadoria ou quando tiver tempo para ajudar alguém, sistematicamente. O voluntariado dá ainda mais sentido à vida.

Heloisa Dallanhol

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