Só para lembrar: idosos têm de ser tratados como adultos

Com a proximidade da Páscoa, lembro-me de ver pessoas de apenas 70 e poucos anos ter orelhas de coelho colocadas em suas cabeças em uma ILPI (Instituições de Longa Permanência para Idosos). A cena era tragicômica, deprimente mesmo, a despeito de os funcionários da Casa de Repouso só pretenderem comemorar a data (na imagem, a mulher colocou orelhas de Shrek porque quis).

Também vi, numa tarde de recreação, eles darem para os idosos colorir um desenho de Bob Esponja, em vez de imagens para adultos, inspiradas na natureza ou em mandalas, por exemplo.

Detesto ver senhoras embalando bonecas, por melhores que sejam as intenções de quem dá brinquedos aos mais velhos. Parece-me uma forma de infantilizar a velhice, que pode ser dura por si só, sem que inventem modos de piorá-la.

Agora, com a pandemia, a gente sabe que idosos com saúde debilitada estão um pouco mais vulneráveis ao vírus. Então o momento é de cuidar inclusive das palavras usadas para se referir a eles, para não aumentar a sensação de fragilidade. Um editor – possivelmente não o repórter citado – da Folha de São Paulo falou assim de pessoas acima dos 60: “Velhinhos mudam rotina usando álcool gel”. A matéria cita um senhor de 78 anos que não parece se enquadrar na categoria e que dá uma aula de realismo sobre isolamento domiciliar. “Para mim isso aí não é novidade nenhuma”, disse o morador de um condomínio da Terceira Idade mantido pela Prefeitura de São Paulo. “Eu saía para ir basicamente ao mercado. Não tenho amigos nem família.”

(Íntegra em https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2020/04/atividades-sao-suspensas-em-condominios-para-idosos-em-sp.s html )

De boas intenções…

Interessa-me aumentar o respeito aos sêniores porque, aos 52 anos, espero ficar velha com dignidade. Defendo que no Brasil sejam considerados idosos apenas os 70+, com os pros e contras que implicaria a mudança na legislação. Incomodam-me as farmácias que oferecem preços reduzidos a quem tem acima de 55 anos. A troco de quê? Querem adiantar a velhice, em plena época de maior longevidade? Quando eu passar a barreira dos 60, não quero ter privilégios incompatíveis com minha disposição física e mental. Continuarei a espernear se um dia for tratada de “vó” numa Residência Geriátrica,  apesar de alguns acharem o termo carinhoso. Sem filhos, nunca serei avó e ai de quem me chamar assim!

Não ter filhos me poupa de receber ordens “bem intencionadas”, como vejo ocorrer em certas famílias. Assumo que até tento recomendar aos meus pais medidas de proteção contra o corona, mas eles me lembram de que não são crianças e que decidem como se cuidar por si sós. (Em tempo, meu pai odiou ser chamado “fofinho” e “bonitinho” por uma enfermeira que o atendeu anos atrás.)

Por fim, recentemente conversei com um cavalheiro com alto nível de educação, inconformado em ser instalado numa ILPI bem pobre. Ele vivia em Curitiba numa casa de classe média quando a filha o persuadiu a vir morar em Florianópolis, ”onde ela morava”, recordou. “Eu não sabia que viria para esse lugar. Foi ela que escolheu para mim”.

P.S.:  Não sou contra as Residências Geriátricas e nelas sou voluntária há décadas, presenciando a dedicação de funcionários ao bem-estar dos hóspedes. Mas vamos combinar:  idosos devem ser tratados como adultos mesmo que suas faculdades mentais estejam comprometidas. É uma questão de dignidade.

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